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Judoca que comandou a seleção por quatro Olimpíadas, Geraldo Bernardes trabalha há 15 anos com crianças carentes





RIO - Pôr o pijama ou ajeitar o quimono e recomeçar? Geraldo Bernardes optou pelo segundo caminho. Após deixar o comando da seleção de judô depois de quatro Olimpíadas, ele iniciou, em 2000, um projeto social que deu uma reviravolta em sua vida. Atleta e técnico consagrado, Geraldo passou a revelar talentos entre crianças e adolescentes de escolas públicas de Jacarepaguá e da Barra. A iniciativa também mudou a vida de jovens moradores de comunidades como a Cidade de Deus, onde surgiu Rafaela Silva, a primeira brasileira campeã mundial de judô, em 2013. Ao lapidar talentos, ele descobriu uma nova forma de colecionar vitórias.

— Conquistas esportivas são como páginas viradas, glórias passageiras. Fiz uma boa carreira como atleta e, como técnico, ajudei na conquista de seis medalhas olímpicas, mas tudo ficou pequeno diante do que faço hoje, que é transformar pessoas como Rafaela, que tinha poucas perspectivas, em campeãs no esporte e na vida — diz Geraldo, que, aos 72 anos, é um dos poucos no país a usar a faixa vermelha, a segunda graduação mais alta do judô, acima da preta.

A virada de Geraldo teve início numa academia perto da Cidade de Deus. Ele havia acabado de sofrer um duro golpe: colocou duas pontes mamárias e quatro de safena após as Olimpíadas de Sydney, em 2000. Ter sobrevivido, diz ele, foi um sinal de que ainda tinha uma missão. Começou a cumpri-la e, em 2003, a garotada do Judô Comunitário Geraldo Bernardes Body Planet já era bicampeã carioca nas categorias de base.

— Nas competições, ouvia pessoas dizendo que eu estava por baixo com os “pobrinhos”. Mas sempre acreditei nos atletas que vêm de comunidades. Esporte de alto rendimento é sacrifício. E eles estão acostumados a dar tudo de si — afirma Geraldo.

Parceria com Flávio canto
 

Para Rafaela chegar ao estrelato, por exemplo, não foi fácil. Geraldo abriu mão de fazer viagens de férias para custear a participação da então promessa dos tatames em competições. Atualmente, o mestre dá continuidade ao seu trabalho ao lado de um outro ilustre judoca: o medalhista olímpico Flávio Canto, cujo primeiro treinador foi Geraldo, que lhe dava aulas no Condomínio Marapendi, na Barra.

Foi em 2003 que o mestre juntou seu projeto àquele que seu antigo pupilo criou na Rocinha, o Instituto Reação, que hoje tem cinco polos e 1.250 alunos. Canto costuma dizer que não poderia ter parceiro melhor na busca por talentos, já que Geraldo ‘‘tem o dom de acreditar no improvável’’.

Geraldo se tornou coordenador do Reação Olímpico, que garimpa atletas com grande potencial. Mas, diariamente, bate ponto onde tudo começou. Quer dizer, perto: em vez de ocupar a antiga academia de ginástica, o projeto funciona na Universidade Estácio de Sá da Estrada do Capenha, no Pechincha, como polo da Cidade de Deus do Reação. Em casa, Geraldo brinca que o judô é uma amante que toma quase todo o seu tempo. Deixá-lo? Nem pensar!

— Isso só vai acontecer quando eu der um troço e sair do tatame morto — afirma Geraldo, lembrando que o judô o levou 80 vezes à Europa.

Pai não sabia dos treinos

O amor de Geraldo pelo judô começou quando ele tinha 15 anos. Era um adolescente brigão que queria brigar ainda mais. Escondido do pai, ele pegava um ônibus no Lins, onde morava, para ter aulas em Marechal Hermes. Guardou esse segredo até 1972, quando já estava casado e era campeão carioca. Só foi descoberto porque apareceu na TV, no programa de Flávio Cavalcanti, para uma demonstração de judô com o japonês naturalizado brasileiro Chiaki Ishii, bronze nos Jogos de Munique.

As portas se abriram, e Geraldo foi professor da equipe de judô da Universidade Gama Filho. Em 1979, foi técnico da seleção pela primeira vez. Questões políticas na confederação, no entanto, só permitiram que ele debutasse nas Olimpíadas em Seul, em 1988, competição em que Aurélio Miguel foi o primeiro medalhista de ouro do judô brasileiro. Perguntado sobre o seu papel no desenvolvimento do esporte, ele dá uma resposta com convicção.

— Dei minha contribuição e continuo dando. A geração dos Jogos de 2020, em Tóquio, está ali, no tatame — diz o mestre, apontando para o grupo que treina no polo da Cidade de Deus.